Entre os mistérios cristãos, na espiritualidade scalabriniana ocupa um lugar privilegiado aquele da Encarnação, que tem no Natal de Jesus a sua festa maior. Não esqueçamos que o brasão episcopal de Scalabrini, com a lenda da Escada de Jacó, alude exatamente ao mistério da Encarnação assim como é vista por João Evangelista (Jo 1,51).
Foi possível definir a espiritualidade de Scalabrini como “espiritualidade de encarnação” (Francesconi), e de uma encarnação vista à maneira dos Padres gregos, isto é, como evento que “divinizando a humanidade de Cristo, divinizou toda humanidade. Nenhum acontecimento é subtraído a Cristo (...). Toda a realidade está envolta na história da salvação (realizada por Cristo), tudo gira em torno a Cristo, foi criada por ele, nele, e para ele, e é toda em tensão e a caminho para Deus através de Cristo” (ib).
Também a devoção à Eucaristia e ao Crucifixo – dois outros aspectos característicos da espiritualidade scalabriniana – se inserem no mistério da Encarnação e, por assim dizer, o expandem: a Eucaristia e o Gólgota são uma extensão da Encarnação”, (A Devoção ao SS. Sacramento, 1902).
Entre os escritos de Scalabrini, Bispo de Piacenza,, estão 18 Discursos para a missa do dia de Natal, verdadeira e próprias homilias, e 6 breves efusões lírico-afetivas para a missa da meia-noite.
O tema da homilia ilustra de vez em quando algum aspecto particular do acontecimento natalício. Aquela que se alude no Folder é a homilia proclamada na Catedral há mais de cem anos, no Natal de 1894. Bela e linear na impostação, ela contém além do mais também algumas características salientes da sua predicação, em particular a preponderância do momento bíblico-teológico (daquilo que Deus fez) sobre aquela moral exortativa (daquilo que nós devemos fazer), e como conseqüência a referência contínua ao texto inspirado e ao pensamento dos Padres da Igreja; mas ela contém, sobretudo, a afabilidade de um coração ardoroso de pai e pastor.
A divisão e os títulos da homilia são da redação.
Citamos aqui somente o argumento de outras três belas homilias natalinas: “Natal, como nascimento da Igreja mestra infalível” (1876), “Natal, mistério da paz, porque é reconciliação com Deus” (1878), “Natal e a promoção do pobre” (1879), “Natal e o paradoxo cristão” (1880), “Natal e a promoção do homem” (1881), “Natal e o Reino de Cristo” (1882), “Natal, mistério de sabedoria, amor e fé” (1883), “Natal e a natureza da verdadeira paz” (1885), “Natal e os benefícios da redenção” (1892), “Natal de Jesus mestre” (1895), “Natal do Príncipe da paz, da inteligência e do coração” (1896), “Natal e os ensinamentos que nos vêm do Presépio” (1897), “Natal e o jubileu do século” (1899).
Homilia do Dia de Natal – 1894
1. Após um preâmbulo sobre a alegria natalícia, advinda do início da salvação,
2. Scalabrini propõe o tema do discurso: o amor de um Deus que no Natal se revela, se doa e se une ao homem.
3. Antes do Natal de Jesus, Deus habitava numa luz inacessível, ciumento, por assim dizer, da sua “privacy”: agora faz-se visível e “palpável”, e não por meio de intermediários, como anjos ou profetas, mas exatamente por meio de seu Filho. É este o pensamento expresso no incipit da Carta aos Hebreus. É interessante como Scalabrini distingue no mal da idolatria uma exigência boa e natural do homem, aquela de querer ver Deus, tendência concedida pelo Natal, que por isso revela o amor de Deus pelo homem.
4. Aquele que é amor não só se revela, mas também se doa, isto é, é também aquele que vem e que, ao invés disso, torna-se “nosso”. Esta solidariedade, iniciada no Natal, terá sua conclusão e a sua perfeição na Eucaristia e no Sacrifício da Cruz, desejados por nosso amor. Natal, Eucaristia, Calvário: três eixos da espiritualidade scalabriniana, evidenciados aqui também pela citação da Seqüência do Ofício do Corpus Domini (Lodi, quarta estrofe).
5. A finalidade deste amor que se revela e se doa é aquela de comunicar-nos a sua própria vida divina, ou como diz o Apóstolo Pedro, aquela de fazer-nos “partícipes da natureza divina”. É uma “elevação” a uma tão “excelsa dignidade” que nos deixa maravilhados, porque (como se exprime na homilia do Natal de 1890) Jesus nos fez “consortes, parentes, concorpóreos e consangüíneos de Deus, duma mesma casa e família com ele, dum mesmo sangue e linhagem com a divindade”. A união da natureza divina, com a natureza humana assumida pelo Filho de Deus, se difunde “intimamente” à nossa natureza humana, ainda que se de maneira “menos perfeita” de quanto não seja em Jesus (porque Jesus é o Filho de Deus por natureza, enquanto nós somos só por graça) e também “tudo quanto o criado” se encaminha a ter parte à glória dos filhos de Deus, segundo o pensamento da Carta aos Romanos, Cap. VIII. É este o conceito teológico de maior densidade da prédica e é possível descobrir a terminologia muito querida a Scalabrini, quando fala da Encarnação como de uma “extensão” de Cristo, ou como de “uma filiação de Jesus Cristo que se alarga e se estende” a todos os homens.
A conclusão por tanto dom de graça é o exultemus et laetemur litúrgico: “Alegremo-nos (...) e exultemos”.
6. A parte exortativa brota naturalmente: como não retribuir o amor àquele Deus que nos amou por primeiro a tal ponto de fazer-se por nós menino? – a citação é de São Bernardo.
7. A homilia, após ter resumido com clareza os três momentos, se transforma em uma oração que enquanto invoca a graça daquele amor de Deus, move também os afetos dos fiéis naquela direção.
Homilia do Dia de Natal de 1894
1. Natal, festa do início da salvação
Por que, ó Diletíssimos, nesta, mais do que em outra solenidade da Igreja, há tanta e tão grande alegria nos ânimos, tanta e tão extraordinária alegria nas famílias, tanta e assim universal comoção nos povos? Ah, não por outra coisa, senão porque na consciência das nações cristãs está profundamente esculpido o pensamento de que no Natal santíssimo de Jesus Cristo teve início a nossa salvação.
Isto é tão verdadeiro que até aos nossos dias e até mesmo ao fim dos séculos não se usará mais outra maneira de contar os anos e as épocas da história do que daquele dia venturoso.
Sim, é ao nascimento de Jesus que está ligada a sorte de toda a humanidade. Ele, por um lado preenche os desejos das gerações passadas; por outro, abre o caminho a novos avanços. Dele, inicia-se uma nova era, uma era de liberdade, de civilização e de progresso. Depois de 1894 anos, Ele é ainda a cabeça do mundo incivilizado, malgrado a incredulidade de muitos e o seu reino não terá fim, porque é reino de verdade, reino de amor: e o seu reino não terá fim (Lc. 1,32).
2. Argumento da prédica
Vimos outras vezes como o Sol da verdade apareceu ao mundo com o Natal de Jesus; vemos, hoje, brevemente, como neste mistério aparece o amor. É o argumento que merece toda a nossa atenção.
Em três maneiras, ó Diletíssimos, Deus nos manifesta o seu amor no mistério do S. Natal. Hoje, de fato, Deus se revela, se doa e se une.
3. Deus se revela
Antes de tudo se revela. Antes da Encarnação, Deus, ainda que presente em todo lugar pela infinidade de seu Ser, parecia confinado com relação ao homem numa região imensamente distante. Estava na grandeza dos Céus, infinitamente acima do mundo que nós habitamos, que precisava ir, digo assim, procurá-lo para tributar-lhe homenagem com as nossas adorações. Dir-se-ia que Deus fosse ciumento de se manifestar as suas criaturas e era opinião junto ao povo antigo que ninguém podia vê-Lo sem morrer.
A necessidade, por outro lado, de ver a Deus era irresistível no coração do homem. Um Deus escondido, não, não lhe bastava, e era exatamente para apagar essa necessidade que o paganismo forjava ídolos de madeira, de pedra e de metal e prodigalizava os seus incensos a divindades falsas e mentirosas.
Deus teve piedade da profunda miséria do homem e deu-se a conhecer finalmente. Por uma admirável invenção de seu amor, transpondo o espaço que Dele nos separava, Ele mesmo, ó Diletíssimos, este Deus de bondade, se dignou a vir a nós, vestiu-se de nossa carne, se fez homem, a fim de que nossos olhos pudessem contemplá-lo e a nossas mãos pudessem tocá-lo. Ele foi visto sobre a terra, diz o Profeta, e conversou com os homens (Bar. 3,38).
Nós contemplamos a sua glória: acrescenta São João, glória do Filho Único do Pai (1,14).
O mistério do Natal é, portanto, em primeiro lugar: Deus tornado visível à humanidade. Até aqui, ó Diletíssimos, Ele não se havia manifestado aos nosso pais senão por meio dos Anjos. Agora, rasgando os véus que o escondia, mostra-se a nós ele mesmo em pessoa. Até aqui Ele se servira para nos falar, da voz dos Profetas: agora é a sua própria voz que nós escutamos: ultimamente, nestes dias, nos falou por meio do Filho (Hb 1,2).
Falando Moisés daquela arca santa que acompanhava nos seus acampamentos, os israelitas e da qual promulgava Deus os seus oráculos, se alegrava com seu povo de tanta sorte; e: não, exclamava estupefato, não há nação tão grande que tenha perto de si os seus deuses como o nosso Deus está perto de nós.
Mas, oh, o que era, ó Diletíssimos, esse privilégio em comparação com aquele que nos deriva do hodierno mistério? Não é mais somente de uma arca material que Deus se nos revela e nos fala, mas no seu próprio Verbo feito carne: O verbo se fez carne e habitou entre nós (Jô 1,14). Oh, dignidade, óh bondade verdadeiramente inefável!
4. Deus se doa
Aquilo, porém, que é ainda mais maravilhoso, aquilo que deve inspirar-nos os mais ternos sentimentos de gratidão, é que Jesus, enquanto a nós se revela, a nós se doa. Ele, de fato, vem para o meio de nós, não já somente para receber nossas homenagens, mas para tornar-se nosso, para dar-se a nós sem reserva, para nos encher de sua graça. Sim, sim, é para nós, unicamente para nós que este divino menino veio ao mundo.
Fazendo-se homem, eis que Ele, o Eterno, o Imenso, o Criador e Senhor do Universo, o Rei imortal dos séculos, fez-se nosso amigo, nosso irmão, o companheiro de nosso exílio. Desde este dia, até o fim dos tempos, Ele não nos abandonará jamais, vivendo por um espaço de trinta anos nossa vida mortal, e permanecendo conosco sob o véu eucarístico, nascendo, torna-se nosso companheiro.
Com ternura única de amor, far-se-á nosso alimento. Nada nos é mais íntimo que o alimento. Assimilando-se à nossa substância, conserva e renova nossas forças. É exatamente sob esta forma que Jesus quer pertencer-nos, transforma-se em comida.
Não basta. Na Cruz, Ele é nossa vítima. Para remir-nos do pecado e da morte, Ele derrama até a última gota de seu sangue e sacrifica a sua vida, constituindo-se preço do nosso resgate, morrendo, nos resgata.
Finalmente, depois de dar-se a nós, de todos estes modos, Ele coroa seus benefícios, doando-se aos eleitos, nos esplendores da glória, para ser-lhes recompensa eterna, reinando, dá-se em recompensa.
Digam-me, óh caros, o amor mais ardente e generoso nunca chegou a tanto? Nunca inspirou um dom comparável a este? Dom perfeito e absoluto, dom sem reserva, dom infinitamente precioso, tendo por objeto o próprio Deus, com todos os tesouros, todas as perfeições, todas as riquezas que são de Deus inseparáveis. Óh, prodígio de caridade verdadeiramente divina!
O mistério do presépio, ó Diletíssimos, é o anúncio, o penhor desta doação celeste. Aquilo que ao homem Deus promete hoje nascendo, o cumprirá em todo o curso de sua vida. Não dará um passo, não dirá uma palavra, não cumprirá um ato que não mire à nossa salvação e de cuja salvação seja o termo, o objetivo final: por nós homens e por nossa salvação (Credo).
Sim, Jesus desde este dia é nosso, verdadeiramente nosso, inteiramente nosso. Seja Ele tudo para nós. Feliz de quem chega a compreendê-lo, e compreendendo-o não busca, não anseia, não quer, senão Jesus!
5. Deus se une
Mas a Encarnação do Verbo, ó meus fiéis, tem um fim ainda mais elevado. Jesus vem à terra, para fazer-nos viver a sua vida, para tornar-nos, por assim dizer, uma única coisa com Ele. Eu vim, Ele mesmo disse, para que tenham vida e a tenham, abundantemente. Ora, esta vida que Jesus vem nos comunicar, unindo-se à nossa, é sua mesma vida.
A união de Jesus, com a alma cristã, é o fundamento de toda ordem sobrenatural. Por ela, o homem se eleva até a participação da natureza divina e nela eleva todo o mundo criado. Cada coisa é vossa, grita o Apóstolo, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro. Mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus (1 Cor 3, 22-23).
Palavras admiráveis que nos revelam a sublime economia do Evangelho. Unida ao Verbo, pela Encarnação, a humanidade sacrossanta de Jesus Cristo tornou-se n’Ele uma só pessoa. Unindo-nos a Jesus Cristo por uma união menos perfeita sim, mas todavia íntima, nós somos uma extensão d’Ele mesmo, nós lhe pertencemos como os membros pertencem ao corpo.
Tal, ó Diletíssimos, a base verdadeira da sublime dignidade do cristão. Daqui é que os nossos atos têm razão de merecimento para a vida eterna. Feitos sob influxo de Jesus Cristo vivo em nós, eles, de certo modo, lhe pertencem e revestem por si próprio uma forma, um caráter divino.
Daqui ainda deriva em nós, como diz o Apóstolo, somos em Jesus Cristo benditos, eleitos, predestinados, adotados como filhos, tornados aceitos pelo Altíssimo (Ef 1).
Pensamento, também este, além de tudo, consolador! Deus ama o seu Filho e o ama essencialmente, não pode não amá-lo. Mas aquele seu dileto Filho se fez homem. Portanto, Deus com uma só complacência e diligência ama o homem. Portanto, nós também estamos envolvidos e compreendidos pelo Pai, num só ato de amor e como em nós e por nós se alarga e se distende a filiação de Jesus Cristo assim a nós também se alarga e se distende também o amor do pai: nos fez graça no Filho seu dileto (Ef 1,6).
Quem não se sente enternecido, no fundo da alma, ao recordar essas verdades altíssimas? Como o esposo que ama a esposa, ama por ela tudo o que a ela pertence, assim, Deus nos ama no seu Filho. Este é o dileto por si, nós o somos nEle e por Ele.
Alegremo-nos, portanto, neste dia, ó Diletíssimos, exultemos; e ao amor terno e forte, que Jesus nos mostrou, encarnando-se, respondamos com o mesmo amor: nós devemos amá-lo, porque nos amou primeiro (1 Jo 4,19).
6. Parte exortativa
E não é, exatamente, para despertar em nós este nobre sentimento que Jesus nasceu assim? Senhor absoluto de todas as coisas, Ele, sem dúvida, podia assumir um corpo glorioso, inalterável, imortal; poderia aparecer ao mundo na plenitude da idade perfeita, podia fixar sua morada no primeiro palácio real da terra; podia circundar-se da corte mais esplêndida que jamais foi vista. Ao contrário, quis passar pelas fraquezas e enfermidades da infância. Por que, se não para conquistar mais eficazmente o nosso coração? Qual coisa, de fato, ó Diletíssimos, mais atraente do que uma criança? O berço, escreve um ilustre contemporâneo, é aquilo que há de mais encantador sobre a terra. Ele concentra em si os afetos e as ternuras da família, como também desperta as esperanças mais belas da Igreja e da pátria. Os votos dos pais pousam sobre o berço que acolhe em si o neonato, como o cálice de uma flor que acolhe o orvalho do céu. Tudo aquilo que há de mais querido, de mais rico, de mais belo em casa seja ela o palácio de um príncipe ou a cabana de um pescador, circunda aquele rebento predileto do santuário doméstico. Percebe-se ali, ao redor, quase uma áurea do Céu que beatifica. Vê-se como pairar de um Anjo que protege aquela flor misteriosa e o defende com as asas no sono e na vigília. Quem poderia olhá-lo sem sentir enlevado? Ah, a gente ama uma criança, somos forçados a amá-la!... Pois, então; é exatamente nos atrativos inefáveis da infância que Deus se manifesta a nós: quis nascer assim, aquele que quer fazer-se amar.
Em todos os seus mistérios, Jesus tem direito às nossas homenagens e às nossas adorações; mas neste de seu Natal tem direito, sobretudo, ao nosso amor.
7. Conclusão
Ele, como vimos, por amor revelou-se a nós, a nós se doou sem reserva, a nós comunicou a sua vida. Não é então justo que sem reserva nos doemos a Ele, que não vivamos senão por Ele e que por ele nos declaremos abertamente?
Sim, amabilíssimo Redentor nosso, é este o voto que nós depositamos hoje, reconhecidos aos pés de vosso berço adorado. Sim, prostrem-se diante de vós e vos adorem, vos amem, vos exaltem vos abençoem todos os povos.
Compreendam todos qual seja o valor da alma para salvar à qual vos abaixastes tanto; entendam todos a sublimidade dos seus eternos destinos; Saibam todos que fora de vós não há consolação, nem alegria, nem paz, nem saúde, nem felicidade: que eu vos peço de conceder a todos indistintamente estes filhos e irmãos meus, diletíssimos, sobretudo, nestes santos dias.
Renascei, ó Jesus, segundo o espírito, nas nossas almas, assim que tornados conformes a imagem vossa, aqui na terra, sejamos dignos de tomar parte da vossa glória no Céu pelos séculos dos séculos. Assim seja.
“O Deus terrível agora é o Deus que ama e que quer ser amado, não somente por aquilo que é em si mesmo, mas também por aquilo que não mostra ser; aquele Deus que nos dá os maiores direitos sobre o seu coração, quanto maior estudo, parece dar-se para conquistar o nosso”
(Homilia do Natal de 1880).
* Livre tradução de Ivo Prati da Coleção italiana de Folders “Beato João Batista Scalabrini, Bispo e Fundador.